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A Colômbia e sua Literatura (74): José Manuel Arango

Rosemary Conceição dos Santos*

 

De acordo com especialistas, José Manuel Arango (1937-2002) foi um poeta colombiano voltado à filosofia e educação, que se tornou mestre em literatura pela Universidade da Virgínia Ocidental, EUA. Professor de lógica simbólica na Universidade de Antioquia, Arango fundou, juntamente com outros poetas, revistas literárias voltadas à divulgação do texto lírico. Indagado sobre seu processo criativo, afirma o autor “Talvez o poema nasça da exploração de uma circunstância compartilhada, ou como resposta a uma experiência pessoal, dolorosa ou feliz. Algumas palavras que serão um reflexo, não apenas do intelecto, mas do ser humano de carne e osso. Por trás delas estará, naturalmente, tudo o que se chama de visão de mundo: convicções políticas e religiosas, coisas aprendidas ou lições aprendidas com a experiência. Daí se fala e se valoriza, talvez duvidando, talvez errando. Daí se tenta distinguir o verdadeiro do falso nas emoções e nas palavras, ver a diferença entre o que é honesto e o que é fictício, retórico ou sentimental. (…) Mas mais do que de uma visão de mundo, o poema surgirá daquilo que Unamuno chamou de ‘sentido trágico da vida’.” Não é feita apenas de declarações, afirmações e negações, mas também dos verbos e substantivos de uma língua que tem sua história, de palavras que, com suas sonoridades e cadências, despertam ecos e associações; é feita de imagens e ritmos, de rupturas e silêncios. É por isso que é difícil dizer em prosa, instrumento do intelecto, o que um poema diz ou mostra, se for verdade, aquilo que esses textos fracassados que geralmente produzimos se esforçam para dizer em vão”.

Confiante de que existe uma maneira mais abrangente de abordar as coisas e os seres humanos, que se encontra precisamente na poesia, afirma o poeta “Insisto até em acreditar que os deuses não existem ou que morreram. É um anacronismo, claro, mas um anacronismo necessário, neste momento, para a poesia. Sempre acalentei a convicção de que o sagrado, o que Lezama Lima chamou de ‘sobrenatureza’, não pode ser negado impunemente. Só que não se trata de algo de outro mundo. São os poderes que encontramos em toda parte: numa árvore, num pássaro, numa criança. Até mesmo nos canalhas, nos jogadores e nos bandidos que hoje nos cercam. Tales disse séculos atrás que tudo é feito de pequenos deuses… ou demônios. Eu gostaria, se fosse possível, de ser seu discípulo, nesse tipo de politeísmo, por polidemonismo, ou pandemonismo.”

Por sua vez, sobre sua poesia, o escritor William Ospina escreveu: “José Manuel Arago vê na linguagem um instrumento íntimo e comovente para questionar a estranheza radical do mundo, para viver nosso destino de admiração e gratidão, para expressar o que somos e para confrontar nossa complexidade. Não é em vão que ele foi um leitor insaciável de Wallace Stevens, Emily Dickinson e Whitman. Ele próprio é uma espécie de Whitman do imediato e do momentâneo, não atraído pelo catálogo global, pelo salmo cósmico, mas por um reconhecimento quase oriental do universo na formiga e no grão de areia. Podemos dizer dele o que ele disse sobre seu venerado mestre, Fernando González: ‘tudo se encaixa na longa meditação em que está envolvido’, e ele continua sentindo e saboreando as coisas do mundo com uma vivacidade amorosa e uma cautela misteriosa. Há alguma coisa que não lhe diga respeito, pela qual ele não se sinta de alguma forma responsável perante Deus, ou perante a linguagem, ou perante o mistério? (…)

Para Arango, ainda segundo especialistas, o poeta incessantemente reúne suas percepções sobre a sombra de uma árvore estranhamente curvada contra uma parede, as duas mulheres cegas que cantam com vozes exaustas, um prédio sendo demolido, um vazio por onde ressoa o murmúrio da cidade como um som áspero de máquinas e multidões. O que significa isso? Significa que, para ele, tudo ganha significado porque é o amor pelas coisas que desvenda o seu sentido e as arrebata de seu mutismo desumano ou divino. Em suas palavras, “A poesia almeja que tudo entre numa ordem de significado. Para que o mundo se revele em beleza e ritmo, para que o poeta se salve, preservando na linguagem a verdade que as coisas lhe sussurram. Derrota, solidão, decadência, tudo pode fazer parte dessa misteriosa harmonia. Quando, vagando pelos bairros noturnos, o poeta nos diz: “em ruas que têm nomes de batalhas/ eu caminho solitário e vazio”.

Alguns versos de Arango? “Vagó toda la noche por calles desiertas maldiciendo alguien lo llamó por un nombre que no era el suyo pero sabía que era a él a quien llamaban”. Traduzindo, “Ele vagou pelas ruas desertas a noite toda, praguejando; alguém o chamou por um nome que não era o dele, mas ele sabia que era a ele que chamavam.”

Professora Universitária*

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