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Antônio Francisco Braga: talento, resistência e memória nacional

Foto: Arquivo

André Luiz da Silva *
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Recentemente, recebi um vídeo no Instagram sobre pessoas que ofereceram grande contribuição à humanidade e que, ao longo do tempo, tiveram seus nomes apagados ou seus rostos invisibilizados pela narrativa histórica dominante. Foram citados, entre outros, Garrett Augustus Morgan, criador do semáforo moderno; Alexander Miles, inventor do sistema de automatização das portas da cabine e do poço dos elevadores; e Lewis Latimer, que desenhou o telefone patenteado por Alexander Graham Bell e aprimorou o filamento da lâmpada original de Thomas Edison, tornando-a mais durável e eficiente. Todos tinham uma característica em comum: eram negros.

Aqui no Brasil, essa prática de apagamento proposital também se faz muito presente e, além de impactar diretamente a forma como as pessoas se enxergam dentro desse contexto, reforça uma visão limitada da cultura, da ciência e da tecnologia brasileiras. Com isso, deixamos de conhecer histórias maravilhosas e profundamente inspiradoras, como a do maestro Antônio Francisco Braga.

Certamente, você já cantou o Hino à Bandeira e sabe que sua letra é de autoria do grande poeta Olavo Bilac, mas pouco ou quase nada se falava sobre quem compôs a música: Francisco Braga. Justamente em um dos gêneros historicamente mais elitizados, a música erudita, aquele homem ocupou seu espaço e nele se destacou com mérito singular.

Nascido no Rio de Janeiro, em 15 de abril de 1868, Antônio Francisco Braga viveu o desafiador período anterior e posterior à abolição da escravatura, marcado por profundas desigualdades e por um racismo estrutural intenso. Ainda assim, conseguiu ingressar no então Instituto Nacional de Música, uma das mais importantes instituições culturais do país à época, e, graças ao reconhecimento de seu talento, chegou a aperfeiçoar seus estudos na Europa, especialmente em Paris, centro irradiador da música de concerto no final do século XIX.

Seu vigoroso legado vai muito além do Hino à Bandeira. Compôs óperas, músicas sacras, peças sinfônicas e diversas obras que ajudaram a edificar os alicerces da música clássica brasileira, inscrevendo seu nome entre os grandes mestres da história musical nacional.

Recordo um trecho do belo hino que diz: “Contemplando o teu vulto sagrado, compreendemos o nosso dever; e o Brasil, por seus filhos amado, poderoso e feliz há de ser”. Mas qual é, realmente, o nosso dever com a Pátria? E o Brasil está se tornando uma nação poderosa e amada? E, sobretudo, como tem tratado seus filhos?

Falecido em 14 de março de 1945, Antônio Francisco Braga não é apenas o autor da melodia do Hino à Bandeira. Ele é símbolo de resistência, talento e conquista em um contexto que não favorecia — e, em muitos aspectos, ainda não favorece — as pessoas negras, dificultando seu acesso àquilo que deveria ser comum a todos os brasileiros: educação, cultura e tudo o que delas emana.

Contar histórias como essa é mais do que um exercício de justiça e de resistência; é corrigir silêncios históricos e dar visibilidade àqueles que verdadeiramente pavimentaram a nossa cultura nacional. Ao conhecer essas trajetórias, ampliamos nosso entendimento sobre o país e passamos a valorizar contribuições que, por muito tempo, permaneceram em segundo plano.

Que, ao contemplarmos nossa bandeira, compreendamos que ela não deve ser um símbolo de divisão ideológica ou político-partidária, mas, sim, como proclama o próprio hino, um verdadeiro “Pavilhão da Justiça e do Amor!”.

* Servidor municipal, advogado, escritor e radialista

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