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Comércio sem comprador?

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O comércio agêntico representa uma mudança mais profunda do que simplesmente utilizar inteligência artificial para recomendar produtos. Nesse novo modelo, o consumidor pode definir preço, prazo, características e limites de gasto e entregar a um agente de IA a tarefa de pesquisar, comparar, escolher e até concluir a compra. A conveniência é evidente: menos tempo procurando ofertas, menos etapas de pagamento e decisões potencialmente mais eficientes. Mas há uma diferença essencial em relação ao comércio eletrônico tradicional: o consumidor deixa de executar diretamente parte da decisão econômica e passa a delegá-la a um sistema automatizado.

É justamente nessa transferência de autonomia que surgem os maiores desafios. A legislação brasileira já garante transparência nas compras pela internet, possibilidade de correção de erros, direito de arrependimento e proteção de dados pessoais. A LGPD também assegura ao cidadão o direito de solicitar revisão de decisões tomadas exclusivamente por tratamento automatizado quando elas afetam seus interesses. O problema é que essas normas foram concebidas, em grande medida, para relações nas quais uma pessoa pesquisa, escolhe e confirma uma compra. No comércio agêntico, será necessário determinar com precisão até onde vai a autorização concedida à máquina e quem responde quando o agente compra errado, ultrapassa limites, interpreta equivocadamente uma preferência ou é manipulado por terceiros.

A proteção dos dados é outro ponto crítico. Para funcionar bem, esses agentes precisarão conhecer hábitos de consumo, histórico de compras, preferências, localização, orçamento e, em determinadas situações, informações financeiras. A própria Agência Nacional de Proteção de Dados alerta para riscos da inteligência artificial relacionados à falta de transparência, ao uso de informações para finalidades diferentes das originalmente previstas, à segurança e a possíveis vieses. Quando a IA deixa de apenas recomendar e passa a gastar dinheiro, uma falha de governança deixa de produzir somente uma sugestão inadequada e pode provocar prejuízo financeiro imediato.

Há também uma questão concorrencial pouco discutida. No comércio tradicional, empresas disputam a atenção das pessoas. No agêntico, precisarão disputar também a atenção dos algoritmos. Um agente poderá escolher fornecedores considerando preço e qualidade, mas também disponibilidade de dados, compatibilidade tecnológica, integração com determinados meios de pagamento ou acordos entre plataformas. Pequenos negócios que não estiverem digitalmente preparados podem tornar-se invisíveis para essa nova geração de compradores automatizados. Sem padrões abertos, transparência e interoperabilidade, a tecnologia criada para ampliar escolhas poderá, paradoxalmente, concentrá-las em poucas plataformas.

O comércio agêntico provavelmente será uma evolução natural das compras digitais, mas eficiência não pode significar perda de controle. Limites claros de gastos, registros das decisões tomadas pela IA, possibilidade de intervenção humana, autenticação segura e mecanismos simples para contestar operações precisarão acompanhar a inovação. O grande desafio não será ensinar máquinas a comprar. Isso já está acontecendo. Será garantir que, quando elas comprarem, continuem obedecendo aos interesses de quem efetivamente paga a conta.

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