O desafio de ser encontrado por clientes que já pedem indicações à inteligência artificial
José Gonçalves *
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A inteligência artificial mudou uma etapa que parecia resolvida para qualquer empresa: ser encontrada por quem precisa dela. Até pouco tempo atrás, a pergunta “qual empresa contratar?” levava a uma lista de links no Google. Hoje, cada vez mais, ela é feita a assistentes como o ChatGPT ou o Gemini, que devolvem três ou quatro nomes já escolhidos. O desafio, agora, é garantir que boas empresas não fiquem fora dessa resposta só por não se apresentarem de forma que a máquina entenda.
A mudança já tem escala. A pesquisa TIC Domicílios 2025, do Cetic.br, mostra que 32% dos usuários de internet no Brasil, cerca de 50 milhões de pessoas, usam inteligência artificial generativa. Entre quem compra para empresas, o hábito é mais forte: em relatório da G2 de abril de 2026, 51% dos compradores de software disseram começar a pesquisa mais por chatbots do que pelo Google, e 69% escolheram um fornecedor diferente do planejado por recomendação da ferramenta.
Mesmo no buscador, as respostas vêm prontas. Segundo o PewResearch Center, quando o Google exibe um resumo feito por IA, as pessoas clicam em algum resultado em 8% das visitas, contra 15% sem o resumo. A consultoria SeerInteractive mediu queda de 61% nos cliques em buscas informativas com esses resumos, mas observou que as marcas citadas dentro deles recebem 35% mais cliques. A disputa deixou de ser apenas pelo primeiro lugar da lista e passou a ser por um lugar dentro da resposta.
Para as empresas de serviços, especialmente as pequenas e médias, essa equação é ainda mais complexa. A pesquisa TIC Empresas 2025, também do Cetic.br, indica que só 53% das empresas brasileiras com dez ou mais funcionários têm site próprio, e que 17% usaram alguma ferramenta de inteligência artificial em 2025: 15% entre as pequenas, contra 50% entre as grandes. Quem não tem site, ou tem um que a máquina não interpreta, não entra na conversa.
Falo com a autocrítica de quem é do setor. À frente de uma softwarehouse, vejo de perto como empresas de tecnologia cuidam mal da própria vitrine. Um levantamento feito em outubro pelo diretório independente Citeo, com os sites de 397 empresas digitais, mostra que uma em cada três não informa, em linguagem de máquina, quem é (nome, site e contatos), e que seis em cada dez não têm o llms.txt, arquivo de resumo proposto para as IAs. O dado mais incômodo está justamente nas software houses: elas constroem sites e sistemas para os clientes, mas só 58% descrevem a própria empresa nesse formato, contra 91% das agências especializadas em busca. É o velho “casa de ferreiro, espeto de pau”.
E as máquinas estão lendo. O mesmo diretório registrou 19.863 leituras de suas páginas por robôs de inteligência artificial em 30 dias, uma média de 660 por dia. É o retrato de um único site, mas mostra que essa leitura acontece todos os dias, com ou sem a participação das empresas.
É importante olhar para esse cenário sem alarmismo. Ninguém consegue garantir lugar na resposta de uma inteligência artificial, e é bom desconfiar de quem promete. Indicação de clientes, relacionamento e bom trabalho continuam sendo a base de qualquer negócio. O que muda é que essas qualidades precisam estar registradas onde a máquina consiga ler e conferir.
Nesse sentido, acredito que a presença digital de uma empresa de serviços precisa ser tratada como infraestrutura, e não como peça de propaganda. Isso significa dizer com clareza, na página inicial, o que a empresa faz, para quem e onde; conferir se o site não bloqueia, por descuido, os robôs de inteligência artificial; publicar os dados da empresa em formato estruturado; e manter as mesmas informações no Google, no LinkedIn e nos diretórios do setor. Foi o que fizemos no site da Mind Group: são ajustes simples e de baixo custo.
A parte mais importante, porém, não depende só da própria empresa. Essas ferramentas cruzam fontes e confiam mais no que terceiros dizem do que no que a empresa diz de si. Por isso, defendo avaliações verificadas de clientes reais e critérios públicos para qualquer lista ou ranking. Iniciativas como a Citeo, que mantém perfis gratuitos, não vende posições e abre a metodologia de seus rankings, ajudam a criar essa referência independente.
Em regiões como a de Ribeirão Preto, isso tem peso concreto. O mapeamento do Supera Parque referente a 2023 identificou 328 startups nos 34 municípios da região metropolitana, com destaque para saúde e agronegócio, e o diretório da Citeo já lista 28 empresas digitais da cidade. Como empresário do interior paulista, sei que essas empresas disputam clientes com fornecedores da capital. Na resposta de uma inteligência artificial, essa disputa pode ser equilibrada, desde que elas consigam ser encontradas.
O setor de tecnologia não pode exigir dos clientes uma transformação digital que não pratica em casa. Quem constrói sistemas, sites e soluções com inteligência artificial para os outros tem a obrigação de dar o exemplo, começando pela própria vitrine.
O objetivo deve ser claro: quando alguém perguntar a uma inteligência artificial qual empresa contratar, a resposta precisa refletir quem de fato entrega, e não apenas quem aprendeu primeiro a falar a língua das máquinas.
* CEO e fundador da Mind Group
Fontes dos números:
• Cetic.br, TIC Domicílios 2025: 32% dos usuários de internet, cerca de 50 milhões, usam IA generativa.
• G2, The AnswerEconomy (abril de 2026): 51% começam a pesquisa mais por chatbots que pelo Google; 69% escolheram outro fornecedor por recomendação do chatbot.
• PewResearch Center (julho de 2025): clique em 8% das visitas com resumo de IA, contra 15% sem.
• SeerInteractive (setembro de 2025): queda de 61% no CTR orgânico em buscas informativas com resumo; marcas citadas com 35% mais cliques.
• Cetic.br, TIC Empresas 2025, resumo executivo: 53% das empresas têm site; 17% usaram IA em 2025 (pequenas 15%, grandes 50%); empresas com 10 ou mais pessoas ocupadas.
• Citeo, estudo com 397 sites (20/10/2026): 32,5% sem schema de organização; 59,7% sem llms.txt; software houses 57,8%; agências de SEO e GEO 90,5%.
• Citeo, registros de robôs de IA, 30 dias até 29/10/2026 (dados internos): 19.863 leituras.
• Supera Parque, Mapeamento do ecossistema da RMRP 2023: 328 startups, 34 municípios; healthtech 55, agritech 44.
• Citeo, empresas digitais em Ribeirão Preto: 28 empresas listadas em 29/10/2026.

