Rui Flávio Chúfalo Guião *
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A condessa Nathércia de Lorest estava presa na masmorra, na alta torre do castelo. Tinha-a encarcerado o conde, sob alegação de infidelidade.A cela era pequena, um humilde catre, uma modesta cômoda. Como conforto, pequenas janelas nas quatro paredes e uma tina de água quente, levada uma vez por mês, para seu banho. Mas, o conde lhe permitira levar a tralha de costura, um pente e um pequeno espelho, onde a condessa podia se ver.
Triste destino lhe fora imposto. Abandonara a vasta mansão de seus pais, com seus salões de festas, sua capela primorosa, seu quarto com cama de dossel. E levara substancial dote, agora de posse do marido.
Passava o tempo entre questionar os meses em que vivera a sedução do poderoso duque de Chateauverdun, numa das inúmeras ausências do conde, recordar o prazer da aventura, não tendo certeza da promessa de que voltaria para leva-la com ele.
Distraia-a a vista panorâmica da masmorra. O rio que serpenteava ao longe, com suas corredeiras suaves, o grande trigal que espelhava sua superfície dourada quando o vento batia, as videiras que subiam as suaves colinas.
Do mosteiro distante, via quando os monges saiam com suas montarias ou visitantes chegavam, em busca de hospedagem.
E bordava, bordava o dia todo.
Nem a visita do poderoso abade de Mallet, recebido com festas e banquetes, trouxe algum socorro para a condessa. Pois o conde convencera o visitante da culpa da esposa.
Dormia mal, com sonhos ora bons, com dragões voadores que a vinham libertar; ora maus, com bruxas a ponto de a mergulhar na água fervente.
Apreciava o tempo do pintor, época em que as uvas deixavam seu verde e iam se colorindo de rosa, vermelho e negro. Lembrava-se do vinho servido às refeições, que lhe dava ligeira tontura e alegrava os jantares no castelo.
Passaram-se os dias, passaram-se os meses. Angustiava-se entre a esperança da vinda do duque para libertá-la e a possibilidade de passar a vida toda como prisioneira.
Foi perdendo o viço. No espelho, começou a ver pequenas rugas circundando os olhos. Teria perdido a beleza que tanto encantara o conde e, depois, o duque ?
Numa tarde, olhando para o horizonte distante, viu bandeiras, flâmulas e uma massa negra de guerreiros em movimento. Vinham tomar o castelo, as propriedades do conde seu marido e libertá-la?
A batalha durou três dias. O som dos aços das espadas e lanças quebrava o silêncio na torre.
O grande fogo colocado no castelo, atinge a masmorra da alta torre.
Quando o duque de Chateauverdun vence apressado os 243 degraus que levam à prisão da amada, nada resta, senão o anel calcinado que havia dado a Nathércia como prova de seu amor.
* Advogado, empresário,Presidente do Conselho do Grupo Santa Emília, secretário-geral da Academia Ribeirãopretana de Letras

