André Luiz da Silva *
[email protected]
Nas agradáveis aulas de Geografia e Ciências aprendíamos que o ano era dividido em quatro estações bem definidas: primavera, verão, outono e inverno. Cada uma durava aproximadamente três meses e possuía características próprias. Parecia simples, previsível e quase imutável.
Nas provas, bastava lembrar que o verão era marcado pelo calor intenso e pelas tradicionais chuvas de fim de tarde. O outono representava a transição para o frio, com a queda das folhas das árvores. A primavera, inspiração de tantos poetas, era conhecida como a estação das flores, das paisagens coloridas e da renovação da vida. No inverno usávamos aqueles agasalhos com cheirinho de mofo ou naftalina.
Com o passar dos anos, porém, novos termos passaram a fazer parte do nosso vocabulário. Primeiro veio o buraco na camada de ozônio. Depois aprendemos sobre o efeito estufa, um fenômeno natural essencial para manter a Terra aquecida, mas agravado pelas atividades humanas. Em seguida chegaram El Niño e La Niña, fenômenos climáticos capazes de alterar a temperatura dos oceanos e provocar secas, enchentes e extremos climáticos em diversas regiões do planeta.
Enquanto cientistas, pesquisadores e ambientalistas repetiam seus alertas, muita gente preferia tratar o assunto com desconfiança ou ironia. Aos poucos, porém, a realidade falou mais alto. O que antes parecia uma previsão distante transformou-se em parte do nosso cotidiano. A expressão “emergência climática” deixou de ser um conceito acadêmico para definir situações de risco imediato provocadas por ondas de calor, secas prolongadas, tempestades e enchentes cada vez mais frequentes.
Os impactos já não se restringem ao meio ambiente. Eles comprometem a saúde pública, a segurança, a infraestrutura das cidades e a economia. As perdas nas safras agrícolas pressionam o preço dos alimentos, a produção de energia torna-se mais cara e os prejuízos recaem, principalmente, sobre as populações mais vulneráveis.
As imagens que chegam da Europa, castigada por temperaturas extremas e incêndios florestais, impressionam. No Brasil, convivemos com enchentes devastadoras e longos períodos de estiagem. Em cidades como Ribeirão Preto e Guariba, as marcas da força da destruição ainda permanecem visíveis, lembrando que essa realidade já bateu à nossa porta. A pergunta que permanece é: até quando continuaremos tratando essas tragédias como se fossem acontecimentos isolados?
Enquanto crianças aprendem nas escolas a importância de plantar árvores e preservar a natureza, governos ainda apostam fortemente em combustíveis fósseis, permitem o avanço do desmatamento e estimulam modelos de produção e consumo que ampliam os impactos ambientais. É uma disputa desigual. Em 2015, o Papa Francisco já alertava, na encíclica Laudato Si’, que cuidar da “casa comum” significa reconhecer nossa responsabilidade compartilhada pela preservação do planeta e promover uma verdadeira conversão ecológica.
Além das ações para reduzir as causas das mudanças climáticas, é urgente que estados e municípios ampliem os investimentos em prevenção e mitigação de desastres. Quando essas tragédias acontecem, a rapidez da resposta faz diferença entre a reconstrução e o agravamento do sofrimento humano. Nesta semana, o governo federal anunciou um pacote de R$ 1,335 bilhão destinado à compra de milho e arroz, distribuição de cestas básicas, apoio aos agricultores, prevenção de incêndios e monitoramento dos níveis dos rios. Medidas importantes, embora, mais do que atacar as consequências, precisamos investir pesado em soluções permanentes.
Aquilo que aprendíamos nos livros como teoria tornou-se parte da vida real. Exploramos a natureza acima dos seus limites e agora começamos a pagar essa conta. O valor é alto, o prazo é curto e, diferentemente de outras dívidas, não haverá possibilidade de renegociação com o planeta.
* Servidor municipal, advogado, escritor e radialista

