Tribuna Ribeirão
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Nas veredas das frases

Edwaldo Arantes *
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Venho de terras pontilhadas de serras, morros, montes e montanhas que mais parecem silhuetas e contornos, como uma moça nua, deitada de bruços na relva.

Colossal lago, dóceis riachos e caudalosos rios, pinguelas e pontes, pedras seculares habitadas por uma gente que olha de soslaio, adepta da religiosidade, descerrando em suas janelas colchas coloridas, reverenciando a procissão que caminha fervorosa com suas velas, andores, véus, verônicas, turíbulos e venerações.

Localidades onde afloram harmonias, ritmos, compassos, partituras, destacando a música barroca, acompanhando o crescimento dos arraiais, brotando capelas e o ciclo do ouro.

As bandas, tradição com origens no período colonial, reconhecidas como patrimônio cultural imaterial, capitaneadas por centenas de sociedades musicais, espalhadas por todo o Estado das Gerais.

Tempos depois, um conjunto de amigos, quase meninos, formava um grupo e encontrava-se nas esquinas de Santa Teresa para tocar violão. A mãe de dois deles apelidou-o de Clube da Esquina. “Foi nos bailes da vida ou num bar em troca de pão, que muita gente boa pôs o pé na profissão”.

Regiões, povoados, rincões, vilarejos e currutelas acordam no canto do galo e no mugir do gado, adormecem no último trinado do canário-da-terra, no canto melancólico do sabiá-laranjeira, no perfume dos manacás  disputando com as damas-da-noite as mais inebriantes fragrâncias, no repicar melancólico dos   sinos ecoando ao longe, inundando o solitário crepúsculo.

Em nossos melhores momentos, taças e vacas pretas da Sorveteria Spósito, primeiras cervejas no Bar Papagaio, bailes e brincadeiras dançando com o rosto colado, no carnaval, blocos contornando a Igreja Matriz, passando em frente ao Hotel Cosini.

Senhora Gê sempre na portaria do Cine São Sebastião,  recolhendo sisuda, os ingressos.

Em uma espera ansiosa pelo apagar das luzes, sentar ao lado, pegar na mão, o coração batendo, o primeiro beijo viria tempos depois, esperar aflito a  tela anunciar o “Fim”, levantar-se,  desaparecendo sorrateiro como um furtivo amante antes do  amanhecer.
Museus, casarões, pousadas, becos, igrejas cravejadas de imagens, os anjos esculpidos brotados pelos sonhos e as mãos de Antônio Francisco Lisboa, o “Aleijadinho”.

Ladeiras escorregadias, esculturas em pedra sabão, Casa dos Contos, Basílica de Nossa Senhora do Pilar toda revestida com quatrocentos quilos de ouro e prata, o casarão do século XVIII,  onde,  Tomás Antônio Gonzaga, apaixonado por Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, fez dela a musa da sua obra, Marília de Dirceu.

“Enquanto revolver os meus consultos, tu me farás gostosa companhia, lendo os fastos da sábia mestra história, e os cantos da poesia”.

Em um entardecer úmido, sem a menor pretensão, adentrar uma antiga “venda”, com cheiros de eternidade, uma leve penumbra iluminada pelos frios e últimos raios de sol, rompendo as vidraças e seus mosaicos seculares.

Tábuas acordam com o ranger provocado pelo andar maduro e cansado, percorrem com  o taciturno olhar arcaicos barris, armários desbotados e seus conteúdos.

A exposição da história ornada com colheres de pau, lamparinas, bacias, tachos, panelas de barro, baldes, protegidos pelo centenário oratório, repleto de imagens pálidas dos  símbolos da devoção.

Surge um ambiente imaginário, tropeiros e suas indumentárias, armaduras de couro cru, protegendo o corpo contra o sol escaldante e os espinhos dos xique-xiques, macambiras, faveleiras e juremas, assim revelou João Guimarães Rosa, em sua expedição chefiada pelo vaqueiro Manuel Nardi, apelidado por ele, Manuelzão. “Eu quase nada, não sei. Mas desconfio de muita coisa”.

Médico, munido de uma diminuta caderneta, anotava nomes de plantas, cantos e causos, recolhendo linguagens e costumes que viriam a formar a matéria prima de sua obra eterna, “Grande Sertão: Veredas”. “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.

Palavras são como lanças perfurando o peito, não sangram e nem matam, apenas fazem com que nossas vidas sigam vazias como cocos secos jogados nas areias das praias desertas.

Apenas inúteis tentativas em manter  entre as  mãos as águas do riacho, ignoram,  fluindo indiferentes entre os  dedos, alertando que o tempo esvai, comprovando os desígnios da pífia e efêmera existência.

* Professor, escritor e agente cultural

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