Tribuna Ribeirão
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Split Payment e a realidade dos pequenos negócios

Rodrigo Gasparini Franco *
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A contagem regressiva para a implementação da reforma tributária sobre o consumo coloca as micro e pequenas empresas brasileiras diante de uma árdua batalha diária pela sobrevivência financeira. Enquanto o debate nacional costuma se concentrar em alíquotas nominais, regras gerais e grandes projeções macroeconômicas, para quem está atrás do balcão o verdadeiro desafio atende pelo nome de split payment. Esse mecanismo automatizado de arrecadação promete modernizar o sistema e combater frontalmente a sonegação fiscal, mas, na prática cotidiana, retira sem aviso prévio o fôlego financeiro que mantém as portas abertas no comércio e nos serviços de bairro, atingindo duramente a espinha dorsal da economia popular brasileira.

Na rotina atual, o pequeno empreendedor depende de cada centavo que entra diariamente no caixa para honrar os compromissos mais básicos e urgentes, desde a reposição rápida de mercadorias perecíveis até a quitação pontual de funcionários, fornecedores locais e despesas fixas imediatas, como aluguel, energia elétrica e água. Historicamente, o intervalo temporal entre a emissão da nota fiscal e o recolhimento efetivo da guia do imposto no mês subsequente funcionava como um socorro informal indispensável para o sustento contínuo do capital de giro.

Com o split payment, essa margem de manobra é sumariamente eliminada: as maquininhas de cartão, instituições bancárias e plataformas digitais retêm a fatia tributária no exato instante da liquidação da venda e a transferem diretamente ao Fisco, fazendo com que o recurso líquido caia na conta corrente já profundamente desfalcado e sem espaço para qualquer planejamento financeiro tático.

Essa drenagem contínua e em tempo real atinge com força desproporcional as pequenas empresas, que costumeiramente operam com margens de lucro bastante estreitas e praticamente nenhuma reserva de emergência para enfrentar oscilações de mercado. Ao perder essa liquidez imediata, o gestor se vê empurrado diretamente para os balcões bancários em busca de socorro financeiro emergencial, contratando linhas de crédito rotativo caras e sufocadas por juros elevados apenas para cobrir despesas operacionais rotineiras que antes eram tranquilamente amortizadas pela rotação natural das vendas.

Além disso, a promessa oficial de compensação ágil de créditos fiscais gerados em compras anteriores soa ingênua e distante da realidade prática do país, já que qualquer morosidade estatal na homologação e devolução desses valores aprisiona um montante vital nos cofres públicos, paralisando os ciclos futuros de compras.

Paralelamente, a complexidade operacional ergue uma barreira competitiva perversa e desleal, haja vista que os pequenos estabelecimentos raramente contam com assessorias jurídicas especializadas, consultorias contábeis permanentes ou softwares integrados de conciliação financeira de última geração. Auditar manualmente se a retenção automática executada pelas operadoras de cartão e carteiras digitais em dezenas de pequenas vendas cotidianas está correta tende a se transformar em um pesadelo burocrático extenuante para quem já se desdobra sozinho entre atender balcão, negociar preços e gerenciar estoques.

Sem o fornecimento tempestivo de ferramentas acessíveis, automações simplificadas e um suporte institucional adequado, o risco de bitributação indevida, falhas de integração sistêmica e descompassos fatais no fluxo de caixa aumenta drasticamente, asfixiando o empreendimento por pura sobrecarga administrativa.

Por conseguinte, se o novo modelo busca legitimamente frear a concorrência predatória e eliminar brechas estruturais de sonegação, ele acaba impondo um custo de transição e adaptação desmedido justamente para o elo financeiramente mais frágil do mercado nacional.

A partir do momento em que a concretização de uma venda e o pagamento compulsório do tributo se tornam eventos estritamente simultâneos, a qualidade do produto e a lealdade da clientela não bastarão para assegurar a sustentabilidade do negócio. A sobrevivência de milhões de micro e pequenas empresas dependerá da complexa capacidade de reorganizar controles internos, renegociar prazos com fornecedores e equilibrar com rigor a operação cotidiana em um ecossistema rigoroso, no qual a antiga folga de caixa evaporou de maneira irreversível.

* Advogado e consultor empresarial de Ribeirão Preto, mestre em Direito Internacional e Europeu pela Erasmus Universiteit (Holanda) e especialista em Direito Asiático pela Universidade Jiao Tong (Xangai)

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