O fato de 301 das 360 regiões turísticas brasileiras, 83,6% do total, terem sido atingidas por eventos climáticos extremos entre 2020 e 2025 mostra que a mudança do clima deixou de ser ameaça distante para se tornar parte da realidade econômica do turismo. O dado ganha ainda mais importância porque o setor vive expansão: o Brasil recebeu cerca de 9,3 milhões de visitantes internacionais em 2025, superando antecipadamente a meta de 8,1 milhões prevista para 2027 no Plano Nacional de Turismo, e registrou aproximadamente US$ 7,9 bilhões em receitas externas. Crescer, entretanto, não basta quando destinos, infraestrutura e comunidades permanecem vulneráveis a enchentes, secas, incêndios e ondas de calor.
O próprio governo federal reconhece o problema. O Plano Setorial de Adaptação do Turismo afirma que mudanças climáticas ameaçam recursos naturais, infraestrutura, sazonalidade das viagens, empregos e receitas locais, especialmente em regiões cuja economia depende fortemente dos visitantes. Em março de 2026, o Ministério do Turismo formalizou um programa específico de adaptação climática dentro do Plano Nacional de Turismo. O avanço institucional é importante, mas chega diante de uma realidade já instalada. O relatório do Cemaden sobre 2025 registrou recordes de calor, chuvas intensas de alto impacto e seca prolongada em centenas de municípios, demonstrando que planejamento turístico não pode mais ser separado da gestão de riscos e da política climática.
A contradição está justamente aí: o país celebra recordes de visitantes enquanto ainda aprende a proteger os destinos que sustentam esse crescimento. Adaptar o turismo exige mais do que campanhas de promoção depois de uma tragédia. Pressupõe infraestrutura resiliente, planos de contingência, monitoramento climático, preservação ambiental e coordenação entre municípios, estados, União e iniciativa privada. Eventos extremos não podem continuar tratados como exceções diante de evidências de que se tornaram recorrentes. Se o Brasil pretende transformar seu potencial turístico em desenvolvimento permanente, precisará compreender que preservar destinos e preparar comunidades para o novo clima é também política econômica. Sem adaptação, o sucesso de hoje poderá se transformar na vulnerabilidade de amanhã.

