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Canetas emagrecedoras: o perigo do uso sem controle

Produtos de origem desconhecida podem apresentar falhas de esterilidade, dosagem, conservação e controle de qualidade | Foto: Rafa Neddermeyer/ Agência Brasil

A popularização das chamadas “canetas emagrecedoras” ampliou a procura por medicamentos originalmente desenvolvidos para o tratamento do diabetes e, posteriormente, incorporados ao controle da obesidade. Ao mesmo tempo, o crescimento do uso sem acompanhamento profissional e da oferta de produtos irregulares acendeu um alerta entre autoridades sanitárias e entidades médicas.

O interesse ocorre em um cenário de avanço da obesidade no país. Dados do Vigitel, levantamento do Ministério da Saúde realizado nas capitais brasileiras e no Distrito Federal, mostram que 62,6% dos adultos apresentavam excesso de peso em 2024. Em 2006, eram 42,6%.

No mesmo período, o percentual de adultos com obesidade aumentou de 11,8% para 25,7%. Os dados são calculados com base no peso e na altura informados pelos entrevistados.

A obesidade é uma doença crônica e multifatorial, associada a maior risco de diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, problemas articulares e outras condições. Seu tratamento pode envolver mudanças na alimentação, atividade física, acompanhamento psicológico, medicamentos e, em situações específicas, cirurgia.

Os medicamentos mais conhecidos pertencem à classe dos agonistas do receptor GLP-1. Eles reproduzem a ação de um hormônio produzido pelo intestino que participa do controle da glicose, da sensação de saciedade e do esvaziamento do estômago.

A tirzepatida atua também sobre outro receptor, o GIP. A ação combinada ajuda a controlar a glicemia e pode reduzir o apetite e o peso corporal.

Apesar de serem apresentados popularmente como uma única categoria, os medicamentos têm princípios ativos, doses e indicações diferentes. Alguns produtos são registrados para o tratamento do diabetes tipo 2, enquanto outros também possuem indicação para obesidade ou sobrepeso associado a problemas de saúde.

Por isso, a escolha não deve ser baseada apenas na marca mais conhecida ou na experiência de outra pessoa. O profissional precisa avaliar o diagnóstico, o histórico clínico, os medicamentos já utilizados, possíveis contraindicações e a capacidade de acompanhamento durante o tratamento.

A Organização Mundial da Saúde recomenda que os medicamentos sejam utilizados como parte de um cuidado abrangente e de longo prazo contra a obesidade. Isso significa que a aplicação da caneta não substitui a orientação alimentar, a atividade física e o acompanhamento das condições associadas ao excesso de peso.

Notificações aumentaram

Entre dezembro de 2018 e março de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recebeu 2.965 notificações de suspeitas de eventos adversos relacionados aos agonistas do GLP-1. Do total, 46% foram registradas somente em 2025.

A semaglutida apareceu em 58,7% dos relatos. A Anvisa ressalta, entretanto, que uma notificação representa uma suspeita e não comprova automaticamente que o medicamento tenha causado o problema informado.

O crescimento dos registros levou a agência a ampliar o monitoramento desses medicamentos. A medida procura identificar padrões de eventos adversos, erros de administração, uso sem prescrição e problemas relacionados a produtos falsificados ou de procedência desconhecida.

Dados oficiais mostram que 62,6% dos adultos apresentavam excesso de peso em 2024. Em 2006, eram 42,6% | Reprodução

Em fevereiro deste ano, a Anvisa reforçou o alerta para o risco de pancreatite aguda. Embora a reação já conste nas bulas, a utilização fora das indicações autorizadas pode dificultar o diagnóstico e aumentar a exposição a complicações.

Dor abdominal intensa e persistente, que pode irradiar para as costas e ser acompanhada de náuseas e vômitos, exige atendimento médico imediato.

Segundo a agência, o alerta não modificou a avaliação dos produtos regularizados. Os benefícios continuam superando os riscos quando os medicamentos são utilizados para as indicações aprovadas, nas doses previstas e sob acompanhamento profissional.

Receita fica retida

Desde junho de 2025, farmácias e drogarias são obrigadas a reter a receita dos agonistas do GLP-1. A prescrição deve ser emitida em duas vias e tem validade de até 90 dias, contados a partir da data de emissão.

Uma via fica com o paciente e a outra permanece no estabelecimento. A exigência foi adotada para aumentar o controle sobre a comercialização e reduzir o uso indiscriminado.

A retenção da receita não significa que todos os pacientes precisem receber o mesmo tratamento. A indicação depende da avaliação individual e deve seguir a bula do produto.

Também não é recomendado aumentar ou reduzir a dose, interromper o tratamento ou trocar de medicamento sem orientação. A progressão das doses costuma ser gradual justamente para observar a tolerância e reduzir reações adversas.

Mercado clandestino preocupa

O aumento da procura favoreceu a entrada de produtos falsificados, adulterados, importados irregularmente ou produzidos sem os controles sanitários necessários.

Nota técnica conjunta da Anvisa e da Polícia Federal informa que mais de 1,3 milhão de unidades de medicamentos injetáveis irregulares foram apreendidas entre janeiro e abril deste ano.

As fiscalizações encontraram problemas como ausência de registro sanitário, falhas de esterilidade, falta de controle de qualidade, origem desconhecida dos princípios ativos e conservação inadequada. Por serem medicamentos injetáveis, eventuais contaminações podem provocar infecções e outras complicações graves.

Também foram identificadas falhas na manutenção da cadeia de refrigeração. Temperaturas inadequadas durante o transporte ou armazenamento podem comprometer a estabilidade do medicamento, mesmo quando a embalagem aparenta estar intacta.

Em janeiro, a Anvisa proibiu a comercialização e o uso de produtos com tirzepatida das marcas Synedica e TG, fabricados por empresas desconhecidas e anunciados em redes sociais. A proibição também alcançou todos os produtos identificados como retatrutida, substância sem medicamento registrado no país.

A recomendação é adquirir esses medicamentos somente em farmácias e drogarias autorizadas, mediante receita e com emissão de nota fiscal. Ofertas em redes sociais, aplicativos de mensagens, academias, clínicas sem autorização ou sites de procedência desconhecida devem ser evitadas.

Cuidados antes de cirurgias

Quem utiliza agonistas do GLP-1 deve informar o médico e o anestesista antes de cirurgias, exames ou procedimentos que exijam anestesia ou sedação profunda.

Como esses medicamentos retardam o esvaziamento do estômago, pode haver conteúdo gástrico mesmo depois do período de jejum. Isso aumenta o risco de regurgitação e entrada de alimentos ou líquidos nas vias respiratórias durante o procedimento.

A suspensão ou manutenção do medicamento deve ser decidida pela equipe responsável. O paciente não deve interromper o tratamento por conta própria.

Perda de peso pode vir acompanhada de redução muscular

A redução indicada pela balança não revela sozinha tudo o que ocorre no organismo durante o tratamento com medicamentos contra a obesidade. Parte do peso eliminado pode corresponder à massa muscular, especialmente quando a diminuição do apetite leva o paciente a comer muito pouco ou a abandonar refeições.

O endocrinologista Marcio Mancini, integrante da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica, alerta que a falta de supervisão pode provocar ingestão insuficiente de proteínas, vitaminas e minerais.

Algum grau de perda de massa magra pode ocorrer em processos de emagrecimento. O problema aparece quando a redução muscular se torna excessiva e compromete a força, a mobilidade, o equilíbrio ou a capacidade de realizar atividades cotidianas.

Segundo o especialista, a perda de massa magra não deve ultrapassar aproximadamente 25% de todo o peso eliminado. Acima desse patamar, é necessário reavaliar a alimentação, a atividade física e a condução do tratamento.

O acompanhamento pode incluir exames de composição corporal, como bioimpedância ou densitometria de corpo inteiro. Testes de força, entre eles o de preensão manual, ajudam a identificar se a redução observada nos exames já provoca prejuízo funcional.

Proteína deve ser individualizada

Mancini sugere ingestão diária aproximada de 1,2 grama de proteína por quilo de peso para adultos jovens e saudáveis. Para idosos ou pessoas com risco de perda muscular, a quantidade pode chegar a 1,5 grama por quilo.

Esses valores não devem ser aplicados indistintamente. A quantidade precisa ser definida de acordo com idade, peso, nível de atividade física, condições clínicas e funcionamento dos rins, preferencialmente com orientação médica e nutricional.

27/08/2026 – Medicamentos conhecidos como canetas emagrecedoras têm indicações diferentes e devem ser utilizados de acordo com a bula e sob acompanhamento profissional | Foto: Rafa Neddermeyer/ Agência Brasil

Como náusea, sensação de estômago cheio, gases e prisão de ventre podem dificultar a alimentação, uma estratégia é dividir a dieta em pequenas refeições nutritivas. Os alimentos ricos em proteína podem ser consumidos no início, antes que a saciedade impeça a continuidade da refeição.

Carnes, peixes, ovos, leite e derivados, feijões, lentilhas, grão-de-bico e soja são fontes de proteína. A escolha deve considerar as necessidades e as restrições de cada paciente.

A ingestão de água e fibras também é importante para reduzir a prisão de ventre. Refeições muito gordurosas podem piorar náuseas, refluxo e desconforto abdominal em algumas pessoas.

Exercício preserva força

A atividade física, principalmente os exercícios de resistência e fortalecimento muscular, ajuda a preservar a massa magra durante o emagrecimento. O programa deve ser adaptado às condições clínicas e à capacidade funcional do paciente.

Somente aumentar a quantidade de proteína não substitui o exercício. Da mesma forma, treinar sem alimentação adequada pode não ser suficiente para evitar perda muscular.

Queda de cabelo, cansaço persistente, tontura, fraqueza, redução da mobilidade e piora do equilíbrio podem indicar alimentação insuficiente ou deficiência de nutrientes.

Exames laboratoriais podem identificar alterações nos níveis de vitamina D, vitamina B12, ferro, potássio e magnésio, entre outros nutrientes. A suplementação só deve ser feita quando houver indicação, porque o excesso também pode provocar problemas.

Outro sinal de alerta é a restrição alimentar extrema, acompanhada de medo de comer, culpa ou perda completa do prazer relacionado à alimentação. Nesses casos, o acompanhamento psicológico ou psiquiátrico pode ser necessário.

O tratamento adequado procura reduzir gordura corporal sem comprometer músculos, força e qualidade de vida. Para isso, a perda de peso precisa ser acompanhada por avaliações periódicas e ajustes na alimentação e na atividade física.

Uso por estética ameaça saúde de crianças e adolescentes

A utilização de medicamentos para emagrecer por crianças e adolescentes com peso adequado, motivada apenas pela busca de mudanças na aparência, não é recomendada e pode prejudicar o crescimento, o desenvolvimento físico e a saúde mental.

O alerta foi divulgado pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), diante do aumento da popularidade dos agonistas do GLP-1 e da exposição de jovens a conteúdos sobre emagrecimento nas redes sociais.

A entidade recomenda utilizar a expressão “medicamentos para tratar a obesidade” em vez de “canetas emagrecedoras”. A denominação popular pode transmitir a ideia de que os produtos servem para qualquer pessoa que queira perder peso rapidamente.

Mesmo quando existe diagnóstico de obesidade ou diabetes tipo 2, a prescrição não é automática. A equipe deve considerar a gravidade da doença, a presença de outros problemas de saúde, os tratamentos anteriores e a possibilidade de acompanhamento regular.

Também devem ser avaliadas as expectativas do paciente e da família. Metas irreais, pressão estética ou cobrança por resultados rápidos podem comprometer a relação com a comida e com o próprio corpo.

Desenvolvimento pode ser afetado

A redução intensa do apetite pode levar crianças e adolescentes a ingerir menos energia e nutrientes do que o necessário para crescer. Entre os riscos estão deficiências nutricionais, desidratação, alterações nos níveis de sais minerais e perda de massa muscular.

O acompanhamento deve observar peso, altura, estágio de desenvolvimento, alimentação, força muscular e condições emocionais.

Náuseas, vômitos, diarreia, prisão de ventre e dor abdominal aparecem com maior frequência durante o aumento das doses. Vômitos ou diarreia persistentes podem causar desidratação e distúrbios eletrolíticos.

Entre as complicações mais graves estão pancreatite e problemas na vesícula biliar. A hipoglicemia também pode ocorrer, principalmente quando o medicamento é associado a outros tratamentos para o diabetes.

A SBP destaca ainda o risco de transtornos alimentares, ansiedade e depressão quando os medicamentos são utilizados com finalidade exclusivamente estética ou sem acompanhamento adequado.

Mudanças repentinas no comportamento alimentar, recusa constante de refeições, preocupação excessiva com calorias, medo de ganhar peso, isolamento e insatisfação intensa com o corpo precisam ser investigados.

Prescrição exige avaliação

Esses medicamentos são contraindicados para pacientes com hipersensibilidade ao princípio ativo ou aos componentes da fórmula. Também não devem ser utilizados durante a gravidez e a amamentação.

Histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular da tireoide e diagnóstico de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 também estão entre as contraindicações. Casos anteriores de pancreatite exigem avaliação médica individualizada.

A existência de estudos que demonstram eficácia e segurança em determinados grupos de adolescentes não autoriza o uso indiscriminado. Os resultados foram obtidos com critérios de seleção, doses controladas e acompanhamento profissional.

O tratamento da obesidade na infância e na adolescência deve incluir orientação alimentar, atividade física, sono adequado, participação da família e atenção à saúde emocional. O medicamento, quando indicado, integra esse conjunto de cuidados e não substitui as demais medidas.

Pais e responsáveis não devem compartilhar canetas, utilizar sobras de tratamentos de adultos nem comprar produtos pela internet para oferecer aos filhos. A avaliação precisa ser realizada por profissionais habilitados e com experiência no atendimento dessa faixa etária.

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