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Depois do alerta, o diálogo e a esperança

Por Maurilio Biagi Filho

A repercussão do artigo que escrevi recentemente sobre a situação da educação básica pública de Ribeirão Preto superou minhas expectativas pois serviu como alerta e produziu um resultado que considero extremamente positivo, e que vai muito além do que elogios ao texto. Recebiuma centena de mensagens de empresários, professores, educadores, servidores públicos, estudantes e cidadãos dos mais diversos perfis. Pessoas que talvez discordem em muitos assuntos, mas que convergiram em um ponto essencial: a educação básica precisa ocupar o centro das prioridades de Ribeirão Preto.

Entre todas as manifestações, uma me chamou particularmente a atenção. O ex-secretário de Governo de Ribeirão Preto, João Augusto, enviou uma reflexão que sintetiza um sentimento compartilhado por muitos, sobre a história da Educação no Brasil, numa visão mais ampla e sobre um contexto geral. Em determinado momento, ele afirma que “há muito tempo a Educação vive de uma teoria que alimenta uma realidade inexistente”, lembrando que repetimos, com razão, que nossas crianças são nossa maior esperança, mas pouco fazemos para valorizar, na prática, quem dedica a vida a educá-las.

João Augusto também faz uma observação que merece ser refletida por todos nós. Segundo ele, “pouco vimos, nos últimos 30, 40 anos, um governante que pusesse os pés nas escolas de sua cidade, do seu estado. E passasse o dia lá. E usasse uma sala em uma escola como seu gabinete por algum tempo, como símbolo de sua gestão”. É uma provocação que vai além da política partidária e nos leva a pensar sobre o espaço que a educação realmente ocupa nas prioridades da sociedade.

Outro ponto levantado por João Augusto merece igualmente atenção. Ele alerta para a necessidade de fortalecer a formação prática dos educadores. Lembra que gestores escolares assumem seus cargos sem terem recebido um curso de liderança, um treinamento em comunicação e gestão, para enfrentar desafios complexos, como conduzir turmas numerosas, lidar com as novas linguagens das gerações mais jovens e administrar equipes. É uma reflexão importante, que nos convida a olhar não apenas para os alunos, mas também para quem tem a missão diária de educá-los.

Na mesma mensagem, cita o Projete como um exemplo de iniciativa da sociedade civil que merece ser conhecida e multiplicada. A associação Projete desenvolve gratuitamente jovens do ensino médio da rede pública para o ingresso no ensino superior e no mercado de trabalho, demonstrando que boas experiências existem e podem inspirar novos caminhos para a educação.A Maubisa é uma das apoiadoras, mas não posso deixar de agradecer aqui a todos os outros parceiros, que são muitos.

O Projete é um verdadeiro “ovo de Colombo”: uma iniciativa simples em sua concepção, de baixo custo e curta duração, mas capaz de produzir resultados extraordinários. Não se propõe a substituir a educação formal, nem a ensinar português, matemática ou outras disciplinas curriculares. Seu diferencial está em preparar os jovens para a vida, ajudando-os a reconhecer seus talentos, desenvolver competências socioemocionais, ampliar seus horizontes e enxergar caminhos mais promissores para seu futuro acadêmico e profissional.

As considerações do ex-secretário terminam com uma imagem bastante significativa sobre o ato de educar, que envolve nossas escolas e toda a sociedade, se referindo à crise climática. Ele observa que muitos jovens conseguem citar o nome de dez aplicativos de celular em dez segundos, mas não sabem dizer o nome de três árvores, de três pássaros, de três rios de sua própria cidade. E conclui perguntando: “Como nos curar de uma crise sem o remédio da Educação?”

Essas reflexões, assim como tantas outras que recebi, mostram que existe uma disposição sincera da sociedade para discutir soluções. E essa talvez seja a principal boa notícia. Mesmo porque, dias depois, durante uma reunião da FERP, entidade que reúne diversas associações de classe e organizações da sociedade civil de Ribeirão Preto, representantes da Prefeitura apresentaram iniciativas que já vêm sendo desenvolvidas pela Secretaria Municipal da Educação. Entre elas, um amplo diagnóstico da rede municipal, que deverá orientar as próximas ações.

Os participantes da reunião entenderam que este é um tema que exige cooperação, acompanhamento e compromisso permanente. Talvez tenha faltado à administração municipal dar maior publicidade ao trabalho que já vinha sendo realizado. Quando a sociedade desconhece as iniciativas em andamento, cria-se naturalmente a percepção de que nada está sendo feito.

Como escrevi no artigo anterior, ninguém imagina que seja simples reverter um problema que se acumulou ao longo de muitos anos e atravessou diferentes administrações. Não existem soluções imediatas para desafios dessa dimensão. Mas reconhecer a gravidade da situação e construir um ambiente de diálogo já representa um avanço importante.

Faço questão, portanto, de registrar este novo momento. Não apenas em respeito às dezenas de pessoas que compartilharam suas preocupações e sugestões, mas também porque vejo sinais de que a educação está deixando de ser apenas motivo de preocupação para ter destaque no debate público.Mais uma vez isso mostra a possibilidade maravilhosa que nosso atual prefeito, o querido amigo Ricardo Silva, pode aproveitar para deixar um legado muito além do que ele já está construindo. Um mandato só não dá para resolver o problema por completo, mas dá para virar a chave, o que já é uma grande conquista.

Quando representantes da sociedade civil organizada e dos poderesconstituídos conseguem sentar-se à mesma mesa para enfrentar um problema complexo, a cidade inteira ganha. Tenho esperança de que este seja o início de uma verdadeira força-tarefa capaz de recolocar a educação básica no lugar que ela sempre deveria ter ocupado.

O futuro de Ribeirão Preto continuará sendo decidido dentro das salas de aula. A diferença é que, desta vez, talvez estejamos começando a construir esse futuro juntos.

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