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Ribeirão Preto que desapareceu

Entre cinemas, hotéis, indústrias e bairros que mudaram de perfil, a cidade preserva lembranças de uma paisagem que ajudou a construir sua identidade

Ribeirão Preto, a cidade que o tempo transformou (Foto: Arquivo Tribuna Ribeiráo)

| Por: Adalberto Luque |

Quem percorre hoje as ruas de Ribeirão Preto encontra uma cidade marcada por edifícios altos, avenidas movimentadas e novos polos comerciais. A paisagem, porém, nem sempre foi essa. Ao longo de pouco mais de um século, o município passou por profundas transformações que mudaram sua forma de crescer, produzir, morar e se divertir.

Boa parte dessa história permanece registrada em fotografias antigas, documentos e na memória de moradores que acompanharam o desenvolvimento da cidade. Cinemas que reuniam famílias aos fins de semana fecharam as portas. Hotéis tradicionais deixaram de receber hóspedes. Grandes indústrias encerraram suas atividades. A ferrovia perdeu o protagonismo que teve no passado e bairros inteiros ganharam outra configuração.

Mais do que uma sucessão de demolições e novas construções, essas mudanças revelam como Ribeirão Preto acompanhou diferentes ciclos econômicos, o crescimento populacional e as transformações da vida urbana. A cidade de hoje foi construída sobre outra paisagem, que ainda sobrevive em fachadas preservadas (ou não), antigos galpões, estações ferroviárias e, principalmente, nas lembranças de quem viu essa história acontecer.

Luzes que se apagaram

Durante boa parte do século passado, os cinemas de rua ocuparam posição de destaque na vida cultural de Ribeirão Preto. Muito além da exibição de filmes, eram locais de encontro, lazer e convivência, capazes de movimentar toda a região central.

Cine Bristol era um dos cinemas de rua mais frequentados no Centro e até hoje é lembrado por quem frequentou suas dependências (Foto: Alfredo Risk)

Entre os mais conhecidos estavam o Cine São Paulo e o Cine Bristol, que se tornaram as principais salas de exibição da cidade, enquanto outras salas, como o Plaza, São Jorge, Centenário e o Cine Pedro II. Este último é o tradicional Theatro Pedro II, que, durante um período de declínio entre as décadas de 1960 e 1970, foi reformado e transformado em sala de projeções.

As mudanças descaracterizaram a arquitetura original. Em 1980, todavia, um incêndio atingiu o prédio, que ficou praticamente abandonado até que, em 1991, começaram as obras para sua recuperação, que duraram até 1996, quando voltou a ser o majestoso Theatro Pedro II que todos conhecem.

Ao redor dessas salas prosperavam bares, confeitarias, sorveterias e lojas que permaneciam movimentados até o fim da noite. Era comum que famílias inteiras se encontrassem para assistir aos lançamentos e aproveitassem a programação para passear pelas ruas centrais.

A partir da década de 1980, com a chegada dos shopping centers e das modernas salas multiplex, os antigos cinemas perderam espaço. Muitos encerraram as atividades, foram descaracterizados ou demolidos. Em diversos casos, apenas fotografias e lembranças permitem imaginar a importância que tiveram para a vida cultural da cidade.

João José Barbosa Júnior foi muitas vezes a cinemas de rua. O Bristol era seu preferido. Lá, assistiu filmes que ficaram na memória. “ET, os três primeiros filmes da franquia Indiana Jones, entre tantos outros. Também assisti no Plaza, por exemplo, Instinto Selvagem”.

Barbosa Júnior guarda com carinho essa fase de sua vida. “Os cinemas eram luxuosos, tinham as bombonieres, com muitas coisas deliciosas e os filmes tinham aquela atmosfera mágica”, acrescenta.
Carlos Barbosa também frequentou muitos cinemas. Além dos localizados no Centro da cidade, ele cita também os cinemas de bairro, que frequentava bastante. “Cine Vitória, Cine Campos Elíseos, Cine Ipiranga, Cine Cairo. Tinha muitos cinemas, sempre com atrações para todos os gostos”, pontua Carlos Barbosa.

Hotéis que contavam histórias

Durante décadas, hospedar-se em Ribeirão Preto significava ficar no Centro, onde se concentravam o comércio, os bancos, os escritórios e os principais serviços.

O tradicional Hotel Palace recebeu comerciantes, artistas, políticos e viajantes que ajudaram a escrever parte da história da cidade. Outro símbolo foi o Hotel Brasil, cujo edifício permanece de pé, embora atualmente esteja vazio e em avançado estado de deterioração. Colocado diversas vezes em leilão nos últimos anos, o imóvel ainda aguarda uma destinação capaz de devolver vida a um dos prédios mais conhecidos do Centro.

O prédio do Hotel Brasil, além de perder o brilho dos tempos dourados, está literalmente caindo aos pedaços e, mesmo após vários leilões, não encontrou comprador (Foto: Alfredo Risk)

Também marcou época o Hotel Bradesco, referência para representantes comerciais e visitantes quando a região central era o principal endereço econômico de Ribeirão Preto.

Já o Umuarama Hotel acompanhou a própria expansão urbana. Instalado inicialmente no Centro, transferiu-se para as proximidades do campus da USP, acompanhando o crescimento da cidade em direção à zona Oeste. Mais tarde, encerrou definitivamente suas atividades.

A trajetória desses hotéis reflete a descentralização do município. Com novos bairros, centros empresariais e empreendimentos próximos às rodovias, a hotelaria acompanhou a mudança do eixo econômico da cidade.

Quando a indústria movia a cidade

A história de Ribeirão Preto também foi construída dentro das fábricas. Ao lado da força do café e, posteriormente, do agronegócio, importantes indústrias ajudaram a impulsionar o desenvolvimento econômico e garantiram emprego para milhares de famílias.

Na Vila Tibério, a antiga Cervejaria Antarctica Niger tornou-se um dos principais símbolos da industrialização local. Sua presença influenciou o crescimento do bairro e consolidou a região como importante polo de trabalho durante décadas.

Nos Campos Elíseos, a Cia. Nacional de Estamparia (Cianê) escreveu uma das páginas mais importantes da história industrial de Ribeirão Preto. A empresa transformou-se em referência da indústria têxtil brasileira e empregou milhares de trabalhadores ao longo de sua trajetória, garantindo o sustento de inúmeras famílias ribeirão-pretanas e contribuindo para o desenvolvimento econômico e social da cidade.

Fábrica da Antarctica na Vila Tibério começou a ser demolida para construção de shopping, mas projeto emperrou e local está abandonado (Foto: Alfredo Risk/Risk Drones)

Com as mudanças no perfil industrial e na economia, muitas dessas empresas encerraram suas atividades ou transferiram suas operações. Os antigos galpões deram lugar a empreendimentos comerciais, residenciais ou permaneceram como testemunhas silenciosas de um período em que as fábricas faziam parte da rotina da própria cidade.

No amplo terreno onde antes funcionava uma das mais importantes indústrias da região, cogitou-se a construção de um shopping center. Houve a demolição de vários prédios da Antarctica, mas o empreendimento acabou paralisado por disputas judiciais e o local ficou abandonado, em processo de degradação, longe de lembrar a imponência estrutural de outros tempos.

Fernando Mendonça trabalhou na Cervejaria Antarctica Niger entre março de 1991 e agosto de 1997. Segundo ele, no início a Vila Tibério tinha um grande número de funcionários da Antarctica, além dos que trabalhavam na Companhia Mogiana.

“Na Antarctica, muitos funcionários, quando se aposentavam, passavam seus empregos para os filhos e, no ato da aposentadoria, eram presentados com um relógio de ouro. Toda sexta-feira era destinado aos aposentados da cervejaria um horário para confraternização, onde eles jogavam dominó e conversavam, tudo regado a chope e refrigerante”, lembra.

Mendonça começou como produtor de vendas. Visitava bares, cantinas escolares, organizava eventos em escolas como festas juninas. Depois foi promovido a escriturário, tornou-se promotor de vendas sênior, até chegar a gerente de negócios, sendo responsável pela região noroeste do Estado. “Trabalhar na Antarctica era motivo de orgulho para muitos ribeirão-pretanos”, recorda.

A ferrovia que moldou Ribeirão Preto

Poucos elementos foram tão importantes para o crescimento do município quanto a ferrovia. Foi em torno dos trilhos que surgiram bairros, instalaram-se indústrias e chegaram mercadorias e passageiros que impulsionaram o desenvolvimento econômico da cidade e região.

Estação Barracão, no Ipiranga, uma das mais movimentadas, no perímetro urbano da cidade, sofre com a ação do tempo (Foto: Alfredo Risk)

Hoje, parte desse patrimônio permanece. A antiga Estação Barracão continua de pé, mas já não recebe trens. Os trilhos que levavam as composições até o local foram retirados, encerrando definitivamente uma atividade que marcou a história daquela região.

Situação semelhante ocorre na antiga Estação Ferroviária. O edifício preserva sua importância arquitetônica, mas os trens de passageiros deixaram de circular há décadas. Pelo trecho ainda passam apenas composições de carga, lembrando que a ferrovia permanece presente na paisagem, mas já não exerce o protagonismo que teve na formação da cidade.

Quatro bairros, quatro histórias

A transformação urbana pode ser percebida de forma clara em alguns dos bairros mais tradicionais de Ribeirão Preto. O Centro, que durante décadas concentrou praticamente toda a vida econômica, financeira e cultural do município, preserva parte de seu patrimônio arquitetônico, mas convive com imóveis vazios, mudanças no comércio e novos desafios relacionados à revitalização urbana.

A Vila Tibério cresceu impulsionada pela ferrovia e pela instalação de indústrias como a Antarctica. Ainda hoje conserva características que remetem às suas origens operárias e ao período de maior expansão industrial. Outro importante símbolo do bairro, o Botafogo mudou de estádio e o clube acabou fechando. A casa histórica do Botafogo, o estádio Luiz Pereira, deu lugar ao gigante Santa Cruz, na zona Sul da cidade.
Os Campos Elíseos também nasceram ligados aos trilhos e ao desenvolvimento industrial. A presença da Cianê ajudou a moldar o bairro e sua população, transformando a região em um importante polo de empregos e moradia.

Já a região da avenida Nove de Julho talvez simbolize uma das mudanças mais profundas da cidade. Durante décadas foi endereço de residências, clínicas, escritórios e estabelecimentos comerciais que representavam o dinamismo de Ribeirão Preto. Com o passar do tempo, parte desse movimento migrou para outras regiões (parte dessa migração ocorreu nos últimos anos, com as obras de recuperação da avenida), deixando imóveis vazios e desafios relacionados à ocupação, preservação e segurança.

O que ainda resiste

Nem toda a história desapareceu. Muitos dos espaços que ajudaram a construir a identidade de Ribeirão Preto permanecem presentes na paisagem urbana, ainda que desempenhando funções diferentes daquelas para as quais foram concebidos. Ou em péssimo estado de conservação, como o prédio do Hotel Brasil.
O Quarteirão Paulista, o Mercado Municipal, edifícios históricos do Centro e antigas construções industriais continuam lembrando diferentes momentos do desenvolvimento da cidade. Em outros casos, como as estações ferroviárias, a arquitetura sobreviveu, mas o cotidiano que dava vida a esses espaços já não existe.

Preservado, Quarteirão Paulista resiste: prédio do Pinguim sempre foi bem cuidado, mas Hotel Palace foi muito castigado e Theatro Pedro II foi parcialmente destruído por incêndio enquanto era cinema e ficou fechado por mais de uma década, até ser recuperado (Foto: Alfredo Risk)

Essa talvez seja a principal característica de Ribeirão Preto. A cidade cresceu, reinventou-se e modificou sua paisagem sem apagar completamente os sinais de seu passado. Em muitas esquinas, um prédio preservado, uma antiga fachada ou um galpão industrial continuam contando histórias que ajudam a explicar como o município chegou ao século XXI.

Mais do que recordar o que desapareceu, revisitar esses lugares é compreender que a memória urbana não está apenas nas construções, mas também nas funções que elas desempenharam e nas pessoas que fizeram parte dessa trajetória. Afinal, toda cidade muda. O que diferencia Ribeirão Preto é que, por trás de sua paisagem contemporânea, ainda é possível encontrar vestígios de uma história que continua viva para quem sabe onde olhar.

“A cidade é um organismo vivo”

O crescimento urbano de Ribeirão Preto ao longo das últimas décadas consolidou a cidade como um dos principais polos econômicos do interior paulista. Para a arquiteta e urbanista Eliana Avezum, formada pela Universidade Mackenzie em 1987 e com atuação profissional em Ribeirão Preto desde 1990, esse processo também foi marcado pela perda de parte significativa do patrimônio histórico da cidade.

Em sua análise, ela compara Ribeirão Preto a um organismo vivo que “transforma-se, molda-se, espelhando o modo de vida de uma época, tentando adaptar-se às demandas de sua população”. Segundo a arquiteta, o município prosperou, modernizou-se e tornou-se o centro de uma das principais regiões metropolitanas do Estado de São Paulo, mas enfrentou dificuldades para conciliar desenvolvimento e preservação.

Para a arquiteta Eliana Avezum, a cidade prosperou, se modernizou, mas teve dificuldades para conciliar desenvolvimento e preservação (Foto: Arquivo Pessoal)

Na avaliação de Eliana Avezum, a expansão dos condomínios e o deslocamento do eixo de crescimento para a Zona Sul, principalmente a partir dos anos 2000, contribuíram para a descaracterização da região central. Casarões que marcaram o período de riqueza do café deram lugar a edifícios residenciais e comerciais, muitos deles já considerados ultrapassados.

“A pergunta que me dói na alma é a seguinte: Precisávamos mesmo ter destruído grande parte da nossa história, se hoje esses prédios ‘modernos’ já ficaram ultrapassados?”, questiona. Para ela, faltaram planejamento e políticas de preservação capazes de proteger construções de valor histórico.

A arquiteta observa que poucos imóveis foram preservados, como a Biblioteca Sinhá Junqueira, a Casa da Memória Italiana, o Palácio Episcopal, o Palacete Jorge Lobato e o Palacete Camilo de Mattos. Ela defende que edificações ainda existentes, como o Hotel Brasil, o Hotel Umuarama, os antigos prédios da Cianê e da Antarctica, merecem esforços de recuperação. Também chama atenção para o abandono dos antigos cinemas de rua, que perderam espaço para os complexos instalados em shopping centers.

“Ribeirão é linda, é próspera, é solar, é feliz, mas fico aqui imaginando como seria ainda mais linda e acolhedora, se trabalhássemos em conjunto, nas soluções desses problemas”, afirma, ao defender a união da sociedade na preservação do patrimônio histórico remanescente.

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