
Fachada bancária e desdobramentos da crise que abalou o cenário político na América do Sul. (Foto: Bloomberg via Getty Images / BBC)
A liquidação judicial do Ueno Bank desencadeou um abalo institucional sem precedentes no Paraguai, resultando na renúncia da cúpula da autoridade monetária local e na imediata destituição e prisão domiciliar do agora ex-presidente da República, Santiago Peña. O episódio guarda forte semelhança técnica e política com as investigações que envolveram o Banco Master no Brasil, embora com repercussões institucionais distintas.
Peña atuou como acionista do Grupo Vázquez, controlador da instituição paraguaia, até o início do ano passado. Paralelamente, o ex-presidente do Banco Central do Paraguai, Carlos Carvallo Spalding, esteve no comando do Ueno antes de ingressar no serviço público. O elo direto entre a administração federal e a instituição, somado ao bloqueio de cerca de US$ 850 milhões em fundos públicos e previdenciários, precipitou o processo de impeachment em Assunção.
Especialistas em regulação financeira e risco político apontam que as semelhanças com o caso brasileiro concentram-se na rápida expansão das instituições ancorada em ativos de liquidez frágil, cooptação de agentes reguladores e forte inserção política. No caso do Master, fundos de previdência estaduais e municipais aportaram aproximadamente R$ 1,8 bilhão, enquanto o controlador Daniel Vorcaro construiu articulações com parlamentares e autoridades do Judiciário.
Contudo, a dimensão sistêmica do Ueno Bank amplificou a revolta popular. Enquanto o Master representava cerca de 0,55% das captações financeiras nacionais e focava em Certificados de Depósito Bancário (CDBs), o Ueno atingiu 3 milhões de correntistas no varejo, o equivalente a cerca de 60% da população adulta paraguaia, concentrando mais de 9% dos depósitos do país.
O colapso repentino impediu saques imediatos e gerou filas e manifestações pelas ruas da capital paraguaia, minando a sustentação de Peña no tradicional Partido Colorado. A perda do apoio de lideranças governistas e disputas internas pelo controle da legenda aceleraram o afastamento do chefe de Estado, que foi sucedido pelo vice Pedro Alliana.

