Antonio Carlos A. Gama *
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A anedota é indispensável na vida dos homens públicos e privados, e também nós somos a anedota de nós mesmos, e dos outros. Mas, não ouso dizer que a parábola, de que Cristo usou, seja também uma espécie de anedota. De qualquer maneira, ele se valeu dela abundantemente, para ensinar a doutrina a seus discípulos, simples pescadores, cujo entendimento, antes do Paracelso, não ia muito além daquele dos homens do povo.
Ainda assim, de uma das suas parábolas, disse um dos seus discípulos que era dura de entender. Nem irei ao ponto de afirmar que Cristo sorriu, senão interiormente, quando fez aquele trocadilho: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja”. O trocadilho, porém, participa da anedota, e às vezes é um dos seus ingredientes.
Não há dúvida de que as anedotas são uma digressão em muitas passagens daqueles romances de Machado de Assis, intercaladas antes para reflexões colaterais que expressam a sua filosofia e ressaltam o seu humour, que é também de Dickens, de Swift, de Sterne, dos mestres ingleses e franceses.
A vida não é só lágrimas, dramas e tragédias, e até nos velórios há lugar para o riso, ainda que comedido.
Aí está o Viegas avarento, moribundo, em seu leito de morte, que Virgília vai visitar, acompanhada por Brás Cubas. Além da piedade de Virgília, havia nela uma segunda intenção: a de que Viegas viesse a contemplá-la com algum legado, no seu testamento. Também Brás Cubas tinha uma segunda intenção, ao acompanhar Virgília na visita: aproveitar a circunstância para passar todo o dia ao pé dela (Capítulos LCVIII e LCXXXIX).
Agonizante, Viegas tem acessos de tosse que faziam arder o peito de Brás Cubas. No intervalo, debatia o preço de uma casa com um sujeito que ali se encontra, e que pretendia comprar-lhe o imóvel.
Quarenta contos, exigia, não a venderia por menos. Novos acessos de tosse que derreavam o agonizante. Trinta e oito contos, tornava o comprador. “Não… não… quar… quaren… quar… quar…” replicava o avarento.
“Teve um último acesso de tosse, e foi o último; daí a pouco expirava ele, com grande consternação do sujeito magro, que me confessou a disposição em que estava de oferecer-lhe os quarenta contos; mas era tarde”.
Este episódio, quase uma anedota, ou de fato uma anedota, pode ser suprimido sem dano da obra. Ocupa, porém, dois capítulos, nas Memórias.
Sem um comentário, o autor insere-o no livro, para retratar a condição humana que, em face da morte iminente do indivíduo, se apega à terra e aos seus negócios. E é desta maneira, com o seu riso escarninho, que o defunto autor exibe a galeria das pessoas que viu e observou durante a vida. Com minúcias de quem tudo viu com exatidão, quando descreve o corpo do moribundo no leito.
No chalé do Cosme Velho, sentado diante de Carolina, repetir-lhe-ia as anedotas que ouvira nas ruas? Achamos que sim, mas só as anedotas que não violassem o pudor.
A anedota não é incompatível com a sisudez e a gravidade. Ao contrário, ela é o sal e a pimenta do tempero.
* Promotor de Justiça, aposentado, professor de Direito, advogado e escritor

